Estrutura corporal e distribuição das pelagens do jumento Pêga nos registros históricos da associação

Estrutura corporal e distribuição das pelagens do jumento Pêga nos registros históricos da associação

Gleb Strauss Borges Junqueira1, Chiara Albano de Araújo Oliveira2, Gregório Miguel Ferreira de Camargo2 e Raphael Bermal Costa2

1Médico veterinário, doutorando em Zootecnia pela Universidade Federal da Bahia.

2Zootecnista. Professor(a) da Universidade Federal da Bahia.

Quem cria jumentos Pêga conhece a importância de observar o corpo, as proporções e o andamento dos animais. Mas como reunir essas observações para conhecer melhor a raça? E como comparar animais de diferentes épocas? As informações guardadas no registro genealógico ajudam a responder a essas perguntas.

Foi com esse propósito que pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) estudaram medidas corporais e pelagens registradas pela Associação Brasileira dos Criadores de Jumento Pêga (ABCJPêga). O trabalho deriva da dissertação de mestrado em Zootecnia de Gleb Strauss Junqueira sob orientação do professor Raphael Costa e buscou transformar esse acervo em conhecimento útil para criadores e técnicos. Originou o artigo científico apresentado completo abaixo: Junqueira et al (2026), em língua inglesa.

Por que esse estudo foi feito?

A raça de jumentos Pêga tem grande importância na produção de muares marchadores para montaria, trabalho e lazer. Conhecer suas características é parte do cuidado com o futuro da raça. Para isso, precisamos reunir informações sobre muitos animais, de diferentes épocas, além daqueles que cada criador acompanha em sua propriedade.

Já existiam pesquisas preliminares sobre as medidas corporais do Pêga. Moreira et al. (2019) estudaram as medidas e as proporções de animais adultos e em crescimento, enquanto Azevedo et al. (2024) avaliaram medidas, ângulos e proporções do corpo de jumentos Pêga da região Sudeste do Brasil. Esses trabalhos contribuíram para descrever as primeiras características dos animais estudados.

Entretanto, não existiam até então estudos que usavam todos os dados de registros históricos da ABCJPêga. Faltava explorar melhor esse material para descrever o tamanho e as proporções dos animais, comparar machos e fêmeas e observar diferenças entre períodos de nascimento. Foi essa necessidade que motivou o presente trabalho e a parceria da ABCJPêga com a UFBA.

Uma medida isolada conta apenas parte dessa história. A altura, por exemplo, informa o porte do animal. Quando é observada junto com o comprimento do corpo, a largura do peito e outras medidas, ajuda a descrever suas proporções. Estudar essas características em conjunto permite conhecer melhor a variedade de formas corporais encontrada nos animais registrados.

As pelagens também fazem parte dessa descrição. Saber quais cores aparecem com maior frequência em cada época ajuda a documentar a história da raça. A pesquisa procurou identificar essas variações nos registros.

Como os registros foram aproveitados?

A associação disponibilizou uma base com 46.517 animais desde os primeiros registros até 2020. Após a conferência e a seleção das informações, o conjunto principal reuniu 9.093 animais. Algumas comparações utilizaram grupos menores, conforme a disponibilidade dos dados. Foram estudadas 15 medidas corporais e as pelagens anotadas no registro.

O que o estudo mostrou, em resumo?

A primeira comparação foi com relação ao sexo. Os machos apresentaram médias maiores em 14 das 15 medidas corporais em comparação com as fêmeas. A largura do peito foi a característica com maior diferença relativa entre os sexos. Como exemplo, a altura média na cernelha foi de aproximadamente 1,31 m nos machos e 1,27 m nas fêmeas registrados aos três anos.

Compararam-se também as medidas com relação à idade. Apesar de a idade do registro definitivo ser de três anos, alguns animais demoram um pouco mais para obterem o registro. Assim, compararam-se animais registrados aos três e aos cinco anos. As diferenças entre as duas idades de registro foram pequenas. Essa comparação envolveu animais distintos, sem acompanhar o crescimento de cada indivíduo.

A análise conjunta das medidas mostrou que parte das diferenças entre os animais estava relacionada ao tamanho geral do corpo, especialmente às alturas e ao comprimento corporal. Também foram identificadas diferenças nas proporções entre alturas, larguras e perímetros. Isso ajuda a compreender por que observar várias medidas em conjunto oferece uma descrição mais completa da estrutura corporal.

Na comparação entre épocas, os animais nascidos entre 2010 e 2020 apresentaram proporções corporais mais alongadas que os nascidos até 1980. O índice corporal, que relaciona o comprimento do corpo ao perímetro torácico, classificou os animais como longilíneos. A interpretação desse índice indica que a conformação dos animais passou do tipo zootécnico de tração para o tipo de sela, evidenciando a utilização atual da raça.

Quanto às pelagens, a categoria pelo de rato representou 64,7% dos registros analisados e a ruã, 33,0%. A tordilha e as demais pelagens tiveram pequena participação. A distribuição variou entre os anos de nascimento: a pelo de rato predominou durante a maior parte da série histórica, enquanto a ruã ganhou participação nas primeiras duas décadas do século XXI, tornando-se a mais frequente entre os animais nascidos no final da década de 2010.

Como isso pode ajudar o criador?

O acervo do registro genealógico da ABCJPêga permitiu reunir informações de diferentes épocas e construir uma referência histórica sobre os animais registrados no século XX e no início do século XXI. Esse conhecimento oferece um ponto de partida para novas pesquisas e para o diálogo entre a associação, os criadores e os técnicos sobre outras características que podem ser acompanhadas.

Os resultados descrevem as medidas e as pelagens dos animais analisados. Para compreender como as proporções do corpo se relacionam com a marcha, é necessária avaliação específica dessa característica.

Uma possibilidade para futuras iniciativas seria reunir, em fichas digitais vinculadas ao número de registro, fotografias do animal e vídeos do andamento, feitos sob condições padronizadas, seguindo as mesmas orientações de posição, distância e local de captura. As imagens poderiam ser acompanhadas da data, da idade do animal e da descrição de como ele aparece no vídeo: conduzido à mão, montado ou andando solto.

Essas propostas poderiam ser avaliadas em conjunto pela associação, pelos criadores e pelos pesquisadores, considerando sua utilidade, os custos e a rotina dos criatórios. A integração dessas informações com avaliações de andamento e desempenho abriria novas possibilidades de estudo, a partir da experiência dos criadores e do acervo já disponível a fim de gerar fenótipos passíveis de avaliação e seleção.

O registro genealógico é a ferramenta que conecta a história da raça às novas possibilidades de conhecer e acompanhar o jumento Pêga.

O registro genealógico é o alicerce técnico indispensável para o monitoramento fenotípico e a seleção orientada a partir de índices zootécnicos que embasam tomadas de decisão estratégicas, garantindo a evolução do jumento Pêga. Conhecer a história e a evolução dos animais de uma raça e transformar esses dados em indicadores de desempenho analisados com rigor científico, permitem consolidar o melhoramento genético contínuo, assegurando qualidade e sustentabilidade zootécnica da raça frente aos desafios da pecuária moderna.

Referências

Azevedo, V. M.; Alves, A. S.; Godinho, A. B. F.; Di Filippo, P. A.; Quirino, C. R. (2024). Evaluation of angular, linear, and body index measures of Pêga donkeys (Equus asinus) from southeast of Brazil. Observatório de la Economía Latinoamericana, 22(4), e4256. https://ojs.observatoriolatinoamericano.com/ojs/index.php/olel/article/view/4256

Junqueira, G. S. B.; Oliveira, C. A. A.; de Camargo, G. M. F.; Costa, R. B. (2026). Retrospective studbook analysis of morphometric structure, body indices, and coat color distribution in Pêga donkeys. Journal of Equine Veterinary Science, 167, 106140. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0737080626003758

Moreira, C. G.; Menezes, M. L.; Nunes, T. R.; Mota, T. P.; Balieiro, J. C. C.; Oliveira, C. A. A.; Brandi, R. A. (2019). Biometric parameters of adult and growing Pêga donkeys. Revista Brasileira de Zootecnia, 48, e20180297. https://www.scielo.br/j/rbz/a/M9bQsjyxMnV8fScgzqKW9yB/?lang=en