O que se sabe sobre a origem genética do jumento Pêga

O que se sabe sobre a origem genética do jumento Pêga.

Jackeline Santos Alves1 e Gregório Miguel Ferreira de Camargo2

1Bióloga. Doutora em Zootecnia. Pós-doutoranda na Universidade de Purdue (EUA).

2Zootecnista. Doutor em Genética e Melhoramento Animal. Professor da Universidade Federal da Bahia (gregorio.camargo@ufba.br).

Os jumentos (Equus asinus) são animais que foram domesticados por volta 5000 anos antes de Cristo, ou seja, há cerca de 7000 anos atrás na região do Noroeste da África. Um estudo pioneiro, que fez uso DNA mitocondrial, mostrou que os jumentos possuem duas grandes linhagens de DNA mitocondrial, ou seja, duas linhagens maternas: o clado 1 e o clado 2 (Beja-Pereira et al 2004). O clado 1 indica uma origem clara a partir do jumento selvagem da Núbia (sul do Egito) (Equus africanus africanus) e o clado 2 possui ainda origem incerta, podendo ter se originado a partir do jumento selvagem da Somália (Equus africanus somaliensis) (menos provável), do próprio jumento da Núbia ou mesmo de uma subespécie extinta (Beja-Pereira et al 2004, Kimura et al 2011). Já se sabe que, praticamente todas as raças modernas de asininos, possuem os dois clados de DNA mitocondrial. O fato de o animal possuir uma cópia do clado 1 ou do clado 2 não traz vantagem ou demérito ao animal. O estudo dos clados serve para verificar diversidade, variação e relação de evolução entre populações.

Segue abaixo uma tabela adaptada de Migliore et al (2024) que possui uma amostragem representativa de várias raças de jumentos ao redor do mundo e as porcentagens de cada clado.

Tabela 1.

Região País Número de animais % (Clado 1) % (Clado 2)
África Oriental Egito 21 38 62
África Oriental Eritreia 6 50 50
África Oriental Etiópia 47 70 30
África Oriental Quênia 5 60 40
África Oriental Somália 6 50 50
África Oriental Sudão 18 72 28
África Setentrional Argélia 5 60 40
África Setentrional Líbia 8 12 88
África Setentrional Marrocos 31 29 71
África Setentrional Tunísia 6 17 83
África Austral África do Sul 5 80 20
África Austral Essuatíni 5 0 100
África Austral Tanzânia 2 50 50
África Austral Zâmbia 3 0 100
África Austral Zimbábue 11 0 100
África Ocidental Benim 4 75 25
África Ocidental Burkina Faso 46 96 4
África Ocidental Chade 5 80 20
África Ocidental Gana 3 100 0
África Ocidental Guiné 5 100 0
África Ocidental Mali 5 100 0
África Ocidental Mauritânia 4 75 25
África Ocidental Níger 6 67 33
África Ocidental Senegal 6 100 0
Américas México 27 52 48
Península Arábica Omã 5 100 0
Península Arábica Arábia Saudita 5 60 40
Península Arábica Emirados Árabes Unidos 6 50 50
Península Arábica Iêmen 10 70 30
Ásia Centro-Ocidental Azerbaijão 3 66 33
Ásia Centro-Ocidental Irã 7 29 71
Ásia Centro-Ocidental Iraque 5 40 60
Ásia Centro-Ocidental Israel 5 60 40
Ásia Centro-Ocidental Jordânia 5 40 60
Ásia Centro-Ocidental Quirguistão 3 0 100
Ásia Centro-Ocidental Líbano 5 40 60
Ásia Centro-Ocidental Síria 5 40 60
Ásia Centro-Ocidental Turquia 82 33 67
Ásia Centro-Ocidental Turcomenistão 2 0 100
Ásia Centro-Ocidental Uzbequistão 3 33 67
Ásia Oriental China 287 49 51
Ásia Oriental Mongólia 3 33 67
Ásia Oriental Vietnã 3 33 67
Ásia Meridional Bangladesh 4 25 75
Ásia Meridional Índia 10 30 70
Ásia Meridional Nepal 4 75 25
Ásia Meridional Paquistão 4 100 0
Europa (Bálcãs) Albânia 19 58 42
Europa (Bálcãs) Bulgária 22 64 36
Europa (Bálcãs) Croácia 51 67 33
Europa (Bálcãs) Grécia 23 35 65
Europa (Bálcãs) Kosovo 10 80 20
Europa (Bálcãs) Macedônia 13 92 8
Europa (Bálcãs) Montenegro 14 57 43
Europa (Bálcãs) Romênia 10 100 0
Europa (Bálcãs) Sérvia 10 80 20
Europa Oriental Hungria 3 33 67
Europa Oriental Polônia 5 40 60
Europa Oriental Rússia 10 40 60
Europa Oriental Ucrânia 10 60 40
Europa Ocidental Itália 347 26 74
Europa Ocidental França 5 40 60
Europa Ocidental Portugal 6 17 83
Europa Ocidental Espanha 77 32 68
Europa Ocidental Reino Unido 1 0 100

A investigação dos clados nas raças do Brasil também foi feita por Alves et al (2022) e encontra-se apresentada na tabela abaixo.

Tabela 2.

País Raça Número de animais % (Clado 1) % (Clado 2)
Brasil Pêga 10 20 80
Brasil Nordestino 10 80 20
Brasil Brasileiro 10 0 100

O estudo feito por Alves et al (2022) comparou ainda os jumentos do Brasil com banco de dados de DNA disponíveis, na época, que incluíam raças dos países: China, Egito, Etiópia, Peru, Itália, Irã, Quênia, Quirquistão, Tajiquistão e Nigéria para observar com quais grupos os jumentos nacionais se agrupavam. Como era de se esperar, os agrupamentos foram feitos pelos clados, 1 ou 2, com representantes dos países em ambos os clados. Pois, como já foi mostrando anteriormente, os clados 1 e 2 estão presentes em todas as raças modernas de jumentos. Há ainda relatos científicos da frequência dos clados mitocondriais em raças de jumentos de outros países.

Todd et al (2022), em um trabalho bastante importante, utilizaram sequências de genoma completo (todo o DNA) para inferir processos de domesticação e migração das populações. Para isso usaram exemplares de asininos de diversas raças e de mais de 30 países, inclusive com um representante do Jumento Pêga do Brasil. O estudo mostra que o jumento teve uma única origem de domesticação no Noroeste da África (Núbia) cujas populações foram levadas para o Chifre da África e Quênia, de onde se expandiram para Península Arábica. A partir dessa região, migraram tanto para a Europa como para a Ásia. O estudo mostra ainda que animais da Europa foram levados de volta para o Norte da África (Núbia e Magreb).

O estudo mostra que o Jumento Pêga mostrou maior proximidade genética com os jumentos das Ilhas Canárias, depois com os jumentos portugueses e espanhóis e depois com demais raças da Europa Ocidental. Essa proximidade genética reflete o processo de colonização e transporte de animais domésticos para o Brasil inclusive mostrando o comércio e abastecimento de animais nas ilhas marítimas europeias, além do evento migratório da espécie após domesticação.

Os autores do presente excerto são pesquisadores da área de genética animal que trabalham com asininos dentre outros animais domésticos. Ficam à disposição para tirar possíveis dúvidas, compartilhar materiais, receber ideias de pesquisas e investigações científicas, bem como de financiamento não-governamental que possam promover maior conhecimento sobre espécie asinina.

Os textos científicos completos em inglês usados para construção desse artigo estão referenciados abaixo e podem ser acessados.

Referências

Alves et al (2022). Genetic origin of donkeys in Brazil. Tropical Animal Health and Production, 54:291. https://doi.org/10.1007/s11250-022-03280-x

Beja-Pereira et al (2004). African Origins of the Domestic Donkey. Science, 304: 5678, p. 1781. https://www.science.org/doi/10.1126/science.1096008

Kimura et al (2011). Ancient DNA from Nubian and Somali wild ass provides insights into donkey ancestry and domestication. Proceedings of the Royal Society B, 278, 50–57. https://royalsocietypublishing.org/rspb/article-abstract/278/1702/50/73408/

Migliore et al (2024). Mitochondrial DNA control-region and coding-region data highlight geographically structured diversity and post-domestication population dynamics in worldwide donkeys. PLoS ONE 19(8): e0307511. https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0307511

Todd et al (2022). The genomic history and global expansion of domestic donkeys. Science, 377, 1172–1180. https://www.science.org/doi/10.1126/science.abo3503